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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Capítulo 28

15 de junho - o dia da Revolta pela liberdade.
A mulher escreveu no quadro, virando-se para a classe. Os alunos prestavam atenção, enquanto ela se colocava a frente de sua mesa.
 - Amanhã nós comemoramos o dia da Revolta pela Liberdade. Alguém sabe me dizer o que foi esse marco histórico? - ela perguntou, enxergando a timidez de alguns. Era uma turma bem atrasada em relação às outras, devido terem pouco tempo livre para o estudo. Mas a interação intergeracional era bem presente ali, com a presença de crianças, jovens e adultos. - Estamos envergonhados? Que tal... Gabriel?
 - Sim, professora. Foi um dos dias mais importantes na história dos negros. O dia em que todos os negros fugitivos e libertos foram para o centro de Aruaz lutar por sua liberdade. 
 - Obrigada, Gabriel. Alguém agora pode me contar o contexto?
 - Eu posso, senhora professora - um adulto ainda meio envergonhado, mas cheio de orgulho se colocou de pé, dispondo-se a falar. - O Cavaleiro das Trevas foi um personagem importante nesta história. Ele invadia fazendas, ajudando os negros a fugirem e roubando para dar aos pobres. Existia uma colônia onde os negros fugitivos se refugiavam, era pra lá que ia todo investimento. Mas, pasmem: ele era um nobre fazendeiro! Um fazendeiro branco.
Alguns se olharam perplexos, interessados no resto da história.
 - Ele não atuava sozinho, tinha a ajuda de um amigo, Nicholas Jerry, outro branco nobre; de seus criados, Jeremy e Dave; negros refugiados como nosso grande Hector, Lucas e Zani, e não menos importante, sua esposa, Demetria. 
 - E o que aconteceu? - uma garotinha perguntou, curiosa.
 - Bom, pequena, o Cavaleiro foi pego pelos fazendeiros e ele foi à forca - contou, fazendo os que não sabiam da história se sentirem frustrados. - É aí que nossa Revolta começa. Sabendo do que aconteceria ao cavaleiro, os negros refugiados formaram uma frente armada, invadindo a praça na hora da execução. Impediram que ele fosse enforcado, e prenderam os fazendeiros, negociando a liberdade para os negros.
Murmurinhos animados foram ouvidos pela sala, fazendo a professora sorrir. Amava aquele retorno!
 - Então no fim o Cavaleiro salvou os negros?!
 - Não, os negros salvaram o seu povo e o Cavaleiro - a professora explicou, agradecendo ao jovem que falara até agora. - Se a revolta não tivesse sido elaborada por Hector, Lucas e Zani, o Cavaleiro estaria morto e os negros escravizados; entretanto, se o Cavaleiro não tivesse tomado nenhuma atitude, a revolta talvez demorasse bastante a acontecer. Como um plano perfeito, pensado separadamente por ambas as partes, fizemos História.
As palmas foram ouvidas de fora da sala de aula. Era a sétima vez que a professora dava aquela aula anual, sua preferida. Saía com um sorriso feliz no rosto. Entrou em casa, sendo recebida por seu marido parado no batente da porta e o filho dormindo no colo do pai.
 - Ei, meu anjo, boa noite! - deu um beijo no filho de apenas sete anos, que foi levado pelo pai até o quarto. Esperou o marido voltar, a guiando para varanda. Encheu duas taças de vinho, brindando com ele.
 - Como foi o seu dia? - ele perguntou, envolvendo-a num abraço. A mulher retribuiu forte, fechando os olhos. Era tão bom estar em seus braços, era tão bom tê-lo para si. Uma lágrima de felicidade escorreu de seus olhos, fazendo o marido a abraçar mais forte. - Eu te amo, o nosso filho, e tudo que construímos juntos. Se acaso algum dia duvidares disso, lembre de tudo que vivemos. Nós não somos apenas meras almas gêmeas, somos personagens na História destinados a juntos marcar toda uma geração. 
 - Eu também te amo, meu amor.
Um beijo completamente apaixonado selou o final daquele dia. A morena dormiu nos braços do marido, olhando as estrelas. Ela acreditava numa força superior, acreditava que existia um Deus zelando por todos ali. Agradeceu a Ele por ter sido escolhida para viver tudo aquilo. Estava muito feliz por passar mais um 15 de junho ao lado do marido. Sua única tristeza era não ter presenciado a Revolta com seus próprios olhos, pois havia desmaiado naquele dia.



Fim


Terminada a minha história preferida que escrevi até hoje. Ela foi inédita e marcante por vários motivos: a demora, né? hahaha, pois nunca fiquei tanto tempo sem postar como nessa fic; a criação de uma personagem forte ligada à luta das mulheres; ter explorado (muito pouco) a escravidão, e ter incrementado a História. Sei que posso desenvolver contextos e personalidades melhores, afinal, adquiri maturidade durante esse tempo, e por isso prometo a vocês uma outra fic com temas históricos.
Quem não quer um amor para fazer História assim?! Eu já fico de olho nos gatinhos de História na faculdade, porque, olha… eles me seduzem. hahaha
Espero que vocês tenham gostado! Obrigada de verdade por não desistirem de mim! Obrigada por comentarem! Obrigada, de verdade, por estarem presentes! É muito gratificante ler o comentário de vocês! Amo vocês, meninas!
A prova desse amor é: já vou estrear fic nova. É, mais uma para demorar dois meses a postar. MENTIRA, MENINAS. Mas então, ela não tem nada a ver com KOD, é bem moderninha, na verdade. Gira em torno de um app de relacionamento. O nome é @meucrush. É isso, gente. Obrigada e grande beijo!

NÃO ESQUEÇAM QUE TEM O EPÍLOGO DE KOD (CAP. 29 E 30) VINDO AÍ!!!



Capítulo 27

O coração de Demi apertou assim que viu muitas pessoas em volta da forca. Judith já se debulhava em lágrimas, inconsolável. O lugar só enchia cada vez mais. A morena procurava Joseph entre a multidão, avistando suas irmãs. 
 - Bom dia, cidadãos de Aruaz! É com imensa alegria que os convoco tão cedo. A nossa cidade vem sendo há tempos atacada por um homem desprezível: o Cavaleiro das Trevas.
As pessoas ficaram sem reação quando dois fazendeiros e Vitor puxaram Joseph todo vestido de preto e com um saco na cabeça. Ele relutava, mas os homens conseguiram levá-lo para o lado do prefeito. Os burburinhos começaram, e a curiosidade de saber quem estava por trás do saco era imensa. Demi sentiu o coração apertar, pensando em como ajudá-lo. 
 - Não há o que temer, Aruaz! - Vitor exclamou contente, largando brutalmente Joseph no chão de madeira. - Eu capturei o Cavaleiro das Trevas. 
Uma explosão de gritos de alegria foram ouvidos. A cabeça de Demi ia a mil, sem nenhuma ideia.
 - Acalme-se, Judith. Vamos encontrar Joseph, confie em mim! - Demi disse, abraçando a mais velha de lado, que murmurava o nome do patrão inconsolável. Ela quis chorar mais depois do que Demi disse.
 - A senhora não entende...
 - Está aqui o homem que atentava contra às famílias, destruindo seus lares. O filho de Satanás que praticava o mal ao próximo. O maldito que perturbou por muito tempo essa cidade. E principalmente, o traidor que será enforcado hoje aqui, pagando por todos os seus pecados cometidos.
Demi quis voar em barão Bachelard quando o ouviu proferir isso. Esqueceu de seu filho, esqueceu de Joseph, esqueceu de si mesma. Precisava ajudar um amigo que admirava. Enfiou-se na multidão, chegando próxima à forca. 
 - Os senhores não podem fazer isso! - ela gritou, sendo impedida de prosseguir pela barreira de capangas em volta do palco de madeira. Ganhou vaias, sendo encarada por todos ali. Joseph sentiu o coração disparar. - Ele tem que ser julgado pela Coroa, na metrópole. 
 - Cale a boca, imbecil.
 - Sei que todos aqui estão com raiva deste homem, mas temos regras a serem cumpridas - disse, ignorando Vitor. Falava voltada para a população. - O Cavaleiro não era uma figura conhecida somente em Aruaz. Lembram quando a Coroa fez uma expedição de caça? Eles têm muito interesse nele. O que acha que vão pensar do senhor, barão Bachelard, quando souberem que capturaram o Cavaleiro e decapitaram em praça pública sem o consentimento deles?! E o senhor, prefeito?
O burburinho começou de novo, e os fazendeiros se olharam preocupados.
 - Os senhores darão ouvidos a esta mulherzinha? Ela era uma traidora! 
 - Vitor, não avisamos à metrópole - o prefeito disse preocupado. - Ela pode ser o que for, mas tem razão. 
 - Pelo amor de Deus! Nós somos os mais influentes dessa merda de lugar, podemos impor isso. Damos um sumiço nessa puta!
 - E passar por cima da coroa, seu cabeça de merda?! - um fazendeiro o ofendeu, irritado. Começaram a discutir, fazendo barão Bachelard insultar os dois. Ele se aproximou de Demetria, abaixando no palco.
 - Tu és realmente esperta e corajosa como diziam, querida - ele elogiou, olhando-a de cima a baixo e demorando em seu decote, coçando a barba. Demi quis vomitar em cima dele. 
 - Nojento e desprezível, eu diria de ti.
 - Ora, quanta petulância... Teu marido deveria ter te dado uns tapas para aprender a ser respeitosa. Mas pode deixar que eu mesmo o farei.
Joseph ficou furioso ao ouvir isso, dando um chute no barão e levando um soco, que o fez ir ao chão. 
 - Seu azar é que eu sou esperto também - Bachelard disse a Demetria, antes de se recompor. - Meus senhores, viram o que acabou de acontecer? O demônio não desiste! Como eu ia dizendo antes de ser interrompido, este homem é um traidor. Semelhante a Judas, traiu a todos nós como Judas fez com Jesus. Ele era um de nós, invejoso, corrompido. Deixo a escolha dos senhores o que fazer com Joseph Jonas.
Arrancou fortemente o saco de sua cabeça, revelando o rosto de Joseph machucado. Demi sentiu como se tivesse recebido um soco no estômago, a garganta seca, uma facada no coração. Ele a olhou, implorando perdão. Todas as pessoas ficaram perplexas, um silêncio se instarou na praça.
Joseph sempre havia tratado todos bem, era querido, havia sido um choque coletivo. 
Demi procurou Judith com o olhar, e a mais velha apenas abaixou o olhar, chorando. Aquilo foi suficiente para ela confirmar. Sentiu a frustração, a decepção tomar conta de si. Agora tudo fazia sentido. Ele ter se casado com ela, sumir as noites, ser tão legal, a conhecer tão bem. 
 - Matem-no!!! - as pessoas cantavam em coro, agora inundadas pelo ódio. Atropelaram Demetria, aproximando-se da forca. Ela, ainda sem força e reação, foi sendo jogada para trás.
"Perdão, meu amor"
"Eu te amo" 
Foi a última coisa que viu quando já estavam colocando a corda no pescoço dele. Tudo se tornou preto, e ela desmaiou.